segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Negrinha - Monteiro Lobato - Análise Literária


O conto “Negrinha” de Monteiro Lobato é uma vírgula, uma tênue vírgula na história do Brasil, e mais especificamente dos negros, e tambem na transição do sistema escravista da Casa Grande e Senzala para a República. E um conto infantil que ao mesmo que flerta com o darwinismo racial finissecular que aportaria no mundo, de maneira nefasta e desastrosa, entre as décadas de 1920 e 1930, encontrando importante ressonância no Brasil nas obras do médico Nina Rodrigues e na do também médico Renato Kehl, fundador da Sociedade Eugênica de São Paulo em 1917, e responsável pelo Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia em 1929, pretende utilizar a literatura para dizer o que não se pode dizer às claras, como admite Monteiro Lobato em 1930 em carta ao amigo Godofredo Rangel: “é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, work muito mais eficientemente”.

Cuja utilizaçao encontra-se presente em toda obra de Lobato, e o fez experimentar dissabores editoriais algumas vezes como quando referindo-se e lamentando a recusa de editores estadounidenses em publicar seu romance “O presidente negro” confessa indignado “Meu romance não encontra editor.[...]. Acham-nos ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tanto séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.”
Portanto, o início de seu conto nada possui de terno ou despretensioso, é cinismo frio e calculado de um delinquente racista convicto. Observemos “Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”, nesta aparente descriçao cheia de doçura revela-se a negação da cor como negação da identidade. Para seguir numa sutil contextualização histórica que aparentemente nada diz. “Nascera na senzala, de mãe escrava, e seu primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha”, seu antepassado escravo e o futuro rompimento com este sistema, no famigerado 13 de maio em nada modificaram sua realidade, pois, continuava no canto, mas, desta vez, o canto da República; não tivera protagonismo no sistema escravista, a nao ser como mao de obra explorada e semioforo de um estereoripo racista que se perpetuaria, e mesmo após “fim da escravatura” continua não tendo, pois, continua assumindo, portanto, o unico lugar que as elites lhe permitiram quando lhes escravizaram: o canto.
E é no canto da casa das senhoras virtuosas, esteio de religião, e legitimadas pelas instituições de suas épocas que essa pobre “peste” - assim xingada pela patroa – vive. 
Vive jogada, vilipendiada, como todos os párias do mundo. Vítima da cólera incontrolável da senhora desequilibrada que a cerca, que nem na infância reconheceu-lhe como outro ser senciente. “Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva”.
Sendo sempre alvo das reminiscências de um paradigma sociopolítico que insiste em sobreviver, e se exprimir nessa expressao perojativa “Quem é a peste que está chorando aí?” ensejando essa relação vertical que nunca é rompida e nunca cessa, confirmando em “Cale a boca, diabo!” apenas a libertação formal dos negros récem-libertados que ainda precisam submeter-se, ao associar-se, forçosamente, a essa relação contratualista de patrão-empregado, sem, no entanto, ter seus direitos garantidos, mantendo assim, a relação Casa Grande e Senzala. 
“Assim cresceu Negrinha – magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados”, a Casa Grande não só pulverizava a moral e o sentimento de dignidade como também comprometia o corpo, a nutrição, e o desenvolvimento, em contraste com a Dona Inácia com as suas “banhas no trono”. 
A liberdade formalizada, no entanto, não era alvo de respeito e estímulo, muito pelo contrário, era tutelada, mantendo o tutelado sempre numa situação de infantilidade moral e emocional, privando-lhe, por meio da coerção verbal do direito de ir e vir, como vemos na frase “Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.” “Sentadinha ai, e bico, hein?” com a constante utilização daquilo que Lobato batizou de work  “Braços cruzados, já, diabo!”.
Paralisada, só restava a criança a dádiva do prazer interno, das paisagens interiores, como quando viu pela primeira vez o cuco “cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas”, “Sorria-se então por dentro, feliz, um instante”.
Numa demonstração estremecida e frágil de alcançar uma auto-estima que fora sempre, e rotineiramente desrespeitada com palavras extremamente ofensivas “Pestinha, diabo, bruxa, pata choca, pinto gorado, sujeira, bisca, coisa ruim”, resultando numa excepcionalidade comovedora quando ao ser chamada de “bubonica” sentiu-se lisonjeada, achando a palavra linda, o que não durou muito, ja que, “Perceberam-no e suprimiram-na da lista”, pois, “Estava escrito que não teria um gostinho só na vida – nem este de personalizar a peste”.
O que se seguiu com as agressões ao seu corpo, alvo de cólera descarregada “todos os dias, houvesse ou não houvesse razão” “Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o imã exerce para o aço”. 
Pois, posto que quem possuiu escravos não abandou os costumes de longa data, adquiridos ainda quando o sistema escravista de abuso vigorava, não “se afizera ao novo regime – essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucuma assada ao forno se engraçou dela o senhor uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá”. Reclamação essa que causava-lhes profundo desconforto, posto que, não existia ordenamento jurídico claro, e mais, o sentimento dos senhores nunca fora educado para aceitar um negro como pessoa e ser de direito, o que se confirma em “O 13 de maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava negrinha em casa como remédio para os frenesis”, vendo-a como propriedade e descarregando sua raiva de sempre com a anuencia que so uma mudança formal, sem resultado de fundo, pode provocar.
Que perigosamente e em ritmo revelava uma personalidade transtornada. “A vara de marmelo, flexivel, cortante: para “doer fino” nada melhor!” “Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o figado e matar as saudades do bom tempo” que culminou na crueldade do ovo quente na boca da garota orfã.
Motivada por um comportamento reproduzido, aprendido no ambiente que em fora (des)educada, quando, numa atitude de ousadia e irresponsabilidade impensada disse a uma criada: “peste”, ao que lhe imputaram uma cruel e arbitrária pena, o já citado ovo quente, traço das mentalidades que aprovam a surra, a agressão a e tortura como pedagógico. Permitindo-nos acompanhar um verdadeiro horror “Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da agua “pulando” o ovo e zás! Na boca da pequena. E antes que o urro de dor saisse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse.”
Para logo em seguida estabelecer-se um enorme, profundo e gritante contraste, entre o que se faz, se diz e se é de fato, quando da entrada do monsenhor em sua casa, e o entabulamento de um diálogo que está embuído de cinismo do início ao fim, por parte da senhora, que mesmo sabendo de sua postura, evoca o nome de Deus, evoca suas virtudes enquanto responsável pela orfã que lhe restou, em contrapartida do monsenhor, que em atitude de convicção sincera fala das virtudes de se ser caridoso.
Mas, como nem só de consequentes e repetitivas e profundas tristezas se compunha a vida, o mês de dezembro vem amenizar-lhe de maneira ligeiramente boa a vida da orfã, preta, analfabeta, pobre e maltratada, com a chegada de “duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas”, o que despertou o olhar curioso da garota que sempre se encontrava no canto, quando as viu “irromperem pela casa como dois anjos do ceu – alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos” logo imaginou que será isso motivo para castigo, “Pois não era crime brincar?”, porém, viu-se enganada, e descobriu ali a desigualdade humana, da qual tentou participar se aproximando para tentar igualar-se, mas, descobrindo-se desigual por demais, foi colocar-se no seu lugar, amargando a dor de ser expulsa desta maneira tão ríspida: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga?” Que lhe calou fundo no peito, e a pôs reflexiva por um tempo de “como seria bom brincar” para quem só “brincara em imaginação com o cuco”. 
Até que o êxtase falou mais alto que o medo, ao ver malas chegarem e os brinquedos serem retirados dali e apresentados em sua frente, viu uma boneca, percebeu ser uma criança artificial e perguntou:
É feita? … perguntou, extasiada.
E por um breve momento se pulverizaram as nuvens nefastas sobre sua cabeça e espírito entorpecidos de pobre criança, e as ingenuidades das tres crianças  se comunicaram num diálogo entabulado com bastante simplicidade, porém, não se assombro de Negrinha. 
Nunca viu boneca? Perguntaram as meninas louras.
Boneca? Repetiu Negrinha. Chama-se boneca?
Como é boba! Disseram. E você como se chama?
Negrinha.
Que pôde pela primeira vez tocar uma boneca, e com isso, experimentar uma epifania, entrando num verdadeira êxtase, “Era como se penetrara no ceu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo de lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta”, que quase teve sua epifania interrompida pela presença beligerante e nefasta de Dona Inácia, que, mesmo vendo a cena, preferiu, por primeira vez, não interferir, muito embora sua gana de alma permanecesse, de maneira ambígua, coexistindo com sentimentos de uma ternura possível e uma redutibilidade sentimental impossível, uma paisagem interior possível e uma expressão facial impossível, explicitada em “Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?”
O que permitiu definitivamente que a epifania se completasse, e que uma cosmovisão surgisse. Como nos introduz o narrador-personagem “Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma na princesinha e na mendiga”.
Que restitui a criança tudo aquilo que a estória e a tradição haviam lhe negado: sua  alma, sua condição de gente, sua condição de sonhadora, sua consciência.
“Negrinha, coisa alguma, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma”.O que a história por meio da tradição católica lhe negou. “Sentiu-se elevada à altura de ente humano”. O que a tradição também católica, a utilização tendenciosa da Bíblia, e o tráfico lhe negaram. Para finalmente descobrir-se ser senciente “Cessara de ser coisa – e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!”
Mas essa consciência foi fatal. Foi fatal para Negrinha e foi fatal para João Antônio. Essa consciência os mataram do mundo e de si os mataram. E da pior forma possível, em vida, cotidianamente, aos poucos, dia após dia. De Negrinha posso fazer o breve relato, de João Antônio deixo para Jane Pereira.
“Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.”
“Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de ceu trevas a dentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.”
“Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.”
E assim morreu, neste devaneio, epifania e delírio completo.
E muito embora o delírio e o devaneio a fizessem estar nas nuvens, e ressoassem vozes e o cuco lhe tivesse aparecido, não se sabe se de memória, o pós-mortem não lhe reservava boas coisas, é o que podemos supor, posto que o cuco “apareceu de bocarra aberta” porém “imóvel, sem rufar as asas”, impedindo assim que esta jovem que tinha sido vilipendiada e maltratada em vida alçasse voos, como o fazem os pássaros. Um destino que se nos aparece realmente trágico, e realmente sem perspectiva, mesmo pós-mortem, pois, “tudo se esvaiu em trevas” e “vala comum”, que se antes era o canto a ela reservado, é agora a vala que a aproxima dos seus iguais, dos seus “comuns”, que ainda assim não significou paz, pois, carregara traçado no corpo as evidências de uma vida mal vivida.
Deixando ao mundo duas lembranças, para as meninas ricas, e para da dona Inacia.
“Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?” disseram as meninas, e
“Como era boa para um cocre!” dissera dona Inacia.
Expondo às claras os sentimentos egoístas que moviam e movem aqueles que lhe rodeavam, ou, rodearam por brevíssimo tempo. Pois, as lembranças revelam um juízo de valor, e um valor comprometido com a própria cosmovisão, incapaz de se solidarizar com a dor e o desaparecimento do outro.

Um comentário:

  1. Excelente leitura. Aprecio crítica literária que vai trazendo o texto original consigo.

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